Tinworth: O Vilarejo que Virou Cinzas e o Mistério que o Ministério Prefere Ignorar



Meus queridos leitores,


Há momentos em que até mesmo eu, com toda minha experiência jornalística e meu estômago de ferro para as mais sórdidas histórias do mundo bruxo, me vejo sem palavras. Ontem foi um desses dias. E não é porque faltaram palavras para descrever o horror – oh, não, eu tenho palavras de sobra para isso. É porque, pela primeira vez em muito tempo, me vi diante de algo que transcende o próprio conceito de tragédia. Tinworth não existe mais. Deixem-me repetir isso para que a magnitude da situação fique cristalina: Tinworth não existe mais. O pequeno vilarejo que até anteontem era lar de aproximadamente 200 bruxas e bruxos, hoje é apenas um monte de cinzas, escombros e... Bem, prefiro não entrar em detalhes muito gráficos sobre o que encontramos espalhado pelas ruas que um dia foram aconchegantes.


Cheguei ao local na manhã de hoje, acompanhada de uma equipe de aurores que, devo admitir, pareciam tão abalados quanto eu me senti ao pisar naquela terra devastada. O cheiro ainda pairava no ar – uma mistura nauseante de madeira queimada, magia residual e... Morte. Muito, muito morte. As casas, aquelas charmosas construções de pedra que davam ao vilarejo seu ar bucólico e acolhedor, agora eram apenas esqueletos enegrecidos apontando para o céu como dedos acusadores. Algumas ainda fumegavam, como se o próprio inferno tivesse decidido fazer uma visita prolongada. Mas o que mais me chamou atenção – e aqui, meus caros, é onde a coisa fica realmente interessante – foram as marcas.


Sulcos profundos no chão, como se algo de proporções colossais tivesse se arrastado pelas ruas principais. Não estou falando de algo que você encontraria no seu jardim depois da chuva, não. Estou falando de rastros que poderiam acomodar confortavelmente um Troll. E para aqueles de vocês que, como eu, acompanharam as notícias vindas da Rússia nos últimos meses, essas marcas têm uma semelhança perturbadora com aquelas encontradas nos vilarejos devastados de Volkhov e Kargopol. Sim, estou falando do basilisco. Aquelaa criaturaa lendária que, segundo nossos queridos especialistas do Departamento de Regulamentação e Controle de Criaturas Mágicas, deveriam todas estar "sob controle" e "sendo monitoradas adequadamente". Bem, se isso é controle, eu prefiro o caos, muito obrigada.


Mas aqui é onde a história fica verdadeiramente saborosa, meus amores. Porque não foram apenas as marcas da serpente que encontramos em Tinworth. Oh, não. O local inteiro estava impregnado de magia residual de combate. Feitiços de alta categoria, duelos prolongados, o tipo de coisa que você esperaria encontrar num campo de batalha, não numa cidadezinha pacata onde a maior emoção da semana era decidir qual sabor de cerveja amanteigada servir no pub local. Alguém lutou. Alguém lutou muito. E, pelo que pude observar, não foi uma luta breve. Agora, vocês devem estar se perguntando: "Selene, querida, isso tudo é terrível, mas por que você está parecendo ainda mais intrigada que o normal?" Ah, meus queridos observadores, é aqui que entramos no território que eu mais adoro: as coincidências que não são coincidências. Cornélio Argel Murdock


Para aqueles que não conhecem o nome, o Sr. Murdock é – ou era, dependendo da perspectiva – um dos juízes mais rigorosos do Ministério da Magia. Um homem cuja reputação de inflexibilidade chegava a ser quase artística. Durante anos, ele foi o responsável por alguns dos julgamentos mais controversos e, devo admitir, necessários de nossa época. E adivinhem de onde o estimado juiz Murdock é natural? Exato. Tinworth. E adivinhem quando foi a última vez que alguém o viu? Na noite anterior ao massacre. Coincidência? Por favor. O desaparecimento de Murdock na véspera da destruição de sua cidade natal não é apenas uma coincidência. É um insulto à nossa inteligência sugerir que seja. A pergunta que fica é: ele foi sequestrado antes do ataque como parte do plano, ou conseguiu escapar sabendo o que estava por vir? E se foi a segunda opção, isso levanta questões ainda mais perturbadoras sobre o que nosso estimado juiz poderia saber – e sobre quem poderia querer silenciá-lo permanentemente. 


Tentei, é claro, obter comentários oficiais do Ministério. Mandei corujas, fiz chamadas pelo flu, até mesmo apareci pessoalmente no saguão principal com meu sorriso mais encantador mas. Nada. Silêncio absoluto. Como se Tinworth nunca tivesse existido, como se Cornélio Murdock fosse apenas um personagem de algum romance que eu tivesse inventado. E esse silêncio, meus queridos, é mais ensurdecedor que qualquer grito. E vocês sabem o que eu acho? Eu acho que alguém, em algum lugar, sabe exatamente o que aconteceu em Tinworth. Alguém sabe por que um basilisco – criatura que deveria estar sob o mais rigoroso controle – apareceu num vilarejo pacato justamente quando um juiz influente desaparece misteriosamente. Alguém sabe se isso foi vingança, intimidação, ou algo ainda mais sinistro.


Mas esse alguém claramente não está disposto a falar. Por enquanto. Porque eu, Selene Dubois, não desisto facilmente. Especialmente quando sinto o cheiro de uma história que vai muito além de uma simples tragédia. E esse cheiro – misturado com fumaça e mistério – está mais forte que meu perfume francês. Então, enquanto o Ministério prefere fingir que nada aconteceu, enquanto nossos queridos oficiais se escondem atrás de seus protocolos e burocracias, eu estarei aqui. Investigando. Questionando. Incomodando todas as pessoas certas até conseguir as respostas que vocês, meus fiéis leitores, merecem. Porque se há uma coisa que aprendi em todos esses anos cobrindo as histórias mais sórdidas do nosso mundo, é que os segredos mais bem guardados são sempre os mais explosivos quando finalmente vêm à tona. E eu tenho o pressentimento de que o segredo por trás da destruição de Tinworth vai fazer o escândalo Winchester parecer uma fofoca de salão de chá. Fiquem atentos, meus amores. Esta história está apenas começando.


P.S.: Se alguém tiver informações sobre o paradeiro de Cornélio Murdock – ou sobre basiliscos vadios –, minha coruja está sempre disponível. E para aqueles que preferem encontros mais... discretos, eu sempre tenho tempo para um chá no Caldeirão Furado. Especialmente se vier acompanhado de informações suculentas.


Matéria por Selene Dubois

Edição: Abril de 2059

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